sábado, 5 de abril de 2008

U2 À DISTÂNCIA DE UM OLHAR .


A magia irlandesa no grande ecrã.
Ver um concerto numa sala de cinema pode não parecer nada de especial. Mas o caso muda de figura se a essa realidade pudermos juntar um concerto da banda irlandesa U2 , com a tecnologia cada vez mais aprimorada do 3D.


Nesta proposta inovadora, não estamos apenas a ver a banda de Bono Vox e companhia num ecrã, temos a ilusão de sentir a sua presença a três dimensões, à distância de um olhar (pelos óculos), demonstrando que esta tecnologia tem pernas para andar.


Depois de exemplos bem sucedidos no 3D, como o filme Beowulf (em que se recorre à animação), esta é a primeira vez que um filme (neste caso concerto) com pessoas de carne e osso foi rodado, produzido e projectado com o digital 3D.
E o futuro aqui tão pertoSerá este o futuro dos concertos? Dificilmente. Mas este parece ser o futuro de um entretenimento de qualidade cada vez mais global nas potencialidades que permite. E o mais certo é vermos, no futuro, mais bandas a aderir a este conceito.


Até porque, sentados no conforto da poltrona do cinema, é possível assistir a um concerto praticamente como se estivéssemos lá. A emoção pode não ser exatamente a mesma, naturalmente, mas grande parte dela já é possível experimentar.
América latina ao rubro com U2Integrado na digressão Vertigo, este evento ao vivo integra o melhor de sete concertos pela América Latina, do Brasil à Argentina.

Todos os espectáculos se realizaram em estádios lotados. Coube a Bono a opção da América, onde a energia do público é semelhante à dos irlandeses e por estarem ausentes desse continente há oito anos.
Foram utilizadas diversas câmaras 3D, que permitiram dar a perspectiva do público, com Bono a três metros de distância, mas também ver os U2 a escassos centímetros, parecendo que Bono canta só para nós. O entusiasmo do público acaba por ser contagiante e o difícil acaba por ser evitar que, na sala de cinema, não haja ninguém a levantar-se e cantar.


Os U2, que já inovaram em tantos domínios ao longo dos anos, foram a banda perfeita para utilizar este conceito. São uma banda completa que oferece espectáculo e mensagens políticas relevantes.
Os U2 aqui tão perto

O que têm em comum Spy Kids, Os Robinsons, Beowulf e agora este filme-concerto U2 3D? Uma dor de cabeça.
Mas também o facto de serem o último grito da tecnologia 3D no cinema. Na sala, aguarda-nos um par de óculos mágicos.
Já não são os de lente azul e vermelha como nos anos 80 – quando Portugal parou em frente à televisão para ver O Monstro da Lagoa Negra entrar-lhe pela casa adentro – mas conferem ao mais grunho dos espectadores um ar de intelectual revolucionário: armação negra, lentes vagamente escurecidas. Ninguém diz que se está ali para um momento de puro, acéfalo, entretenimento.
Colocados os óculos, espera-se passar pela experiência U2 3D como quem a viveu na realidade, ou seja, como quem percorreu a digressão dos U2 pela América do Sul, entre 2005 e 2006, e apanhou bocadinhos de concertos em vários países: Brasil, Argentina, México e Chile.
Mas a viagem vai mais além: o efeito torna o espectador parte do espectáculo. Não estamos apenas no meio da multidão mas, a qualquer o momento, temos – através de 18 câmaras, cada uma operada por cinco pessoas – a sensação de estar em palco com o vocalista Bono.
Mesmo ali à mão de ser apalpado. U2 3D é, no entanto, não mais do que uma exibição tecnológica.
Como em Beowulf, a animação de Robert Zemeckis, é um produto ao serviço do espalhafato. Isso não constitui necessariamente um problema mas, emocionalmente, distancia-nos que estamos a ver e, virtualmente, a viver.
É um bom concerto dos U2 (e faz sentido que sejam eles, sempre na vanguarda, a protagonizar a experiência), com alguns dos clássicos que toda a gente conhece e a mensagem política apaixonada que caracteriza o discurso de Bono.
Através dos óculos mágicos, porém, nada disso fica na memória, muito menos a sensação de que estivemos realmente num concerto. A memória é a do espanto.
E esse olhar de boi para palácio (de que, no futuro, nos iremos rir como nos rimos hoje do ZX Spectrum) entra com todo o mérito para a História, apesar de ensombrado por aquela dorzinha de cabeça que subsiste, apesar de menos incómoda do que no tempo da lente azul e vermelha.
Ainda assim, numa altura em que a música é cada vez menos física, valham-nos os encontrões, o suor, a poeira, o momento único dos concertos de carne e osso.